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Por Que Cachorro Come Cocô e Grama? A Ciência Explica a Coprofagia

Por Que Cachorro Come Cocô e Grama? A Ciência Explica a Coprofagia

Um dos hábitos mais estranhos e mais comuns entre os cães tem explicação na biologia, no comportamento e, às vezes, na alimentação. Entenda o que está por trás da coprofagia e da ingestão de grama.

Se você já flagrou seu cachorro cheirando, mastigando grama ou, pior, comendo as próprias fezes (ou as de outro animal), pode respirar aliviado: você não está sozinho, e o seu cão provavelmente não tem nenhum problema grave. A coprofagia — termo técnico para o hábito de ingerir fezes — está entre as dúvidas mais pesquisadas por tutores de cães no Brasil e no mundo, disputando espaço com outra curiosidade quase tão comum: por que os cães comem grama. Ambos os comportamentos têm explicações que passam pela evolução da espécie, pela genética, pelo ambiente em que o animal vive e, em alguns casos, por questões de saúde que merecem atenção.

Este artigo reúne o que a ciência veterinária e a etologia (o estudo do comportamento animal) já descobriram sobre esses dois hábitos, além de orientações práticas de manejo para tutores que querem, com razão, ver esse comportamento diminuir ou desaparecer.

Coprofagia: mais comum (e mais normal) do que parece

A palavra coprofagia vem do grego kopros (excremento) e phagein (comer). Em cães, o comportamento é surpreendentemente frequente. Um dos estudos mais citados sobre o tema, conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis (UC Davis) e publicado na revista Veterinary Medicine and Science, entrevistou tutores de mais de 3 mil cães e constatou que cerca de 16% dos cães comem fezes com regularidade, enquanto quase um quarto dos animais já foi flagrado fazendo isso ao menos uma vez.

Dado importante: segundo o mesmo levantamento da UC Davis, cadelas têm maior tendência a apresentar coprofagia do que machos, e cães que vivem em grupos com múltiplos animais (dois ou mais cães na casa) também apresentam o comportamento com mais frequência — o que reforça a hipótese de que existe um componente social e instintivo por trás do hábito.

"A coprofagia é um dos comportamentos mais mal compreendidos pelos tutores, porque soa nojento para nós, humanos, mas faz sentido dentro da história evolutiva do cão", explica a médica-veterinária Fernanda Bicudo Salomão, especialista em comportamento animal e professora de etologia clínica em uma universidade do interior de São Paulo. "Fêmeas caninas, por exemplo, comem as fezes dos próprios filhotes nas primeiras semanas de vida como forma de manter a toca limpa e evitar que predadores sintam o cheiro do ninhado. É um comportamento de origem materna que, em muitos cães adultos, simplesmente nunca se apaga."

Outra hipótese amplamente discutida na literatura científica é a de que cães descendem de ancestrais que conviviam de perto com o lixo e os dejetos humanos há milhares de anos, período em que a domesticação começou a ocorrer justamente perto de aglomerados humanos com pouco saneamento. Nesse contexto, aproveitar qualquer fonte calórica disponível — inclusive fezes com restos de nutrientes não digeridos — teria sido uma vantagem de sobrevivência.

Cachorro farejando o gramado em um quintal residencial
Farejar e explorar o ambiente com o focinho é parte natural do repertório comportamental canino.

Vale destacar que a coprofagia é bem mais comum em filhotes do que em cães adultos, especialmente durante a fase de exploração oral (entre 2 e 9 meses), quando o cachorro usa a boca para conhecer o mundo à sua volta — assim como bebês humanos levam objetos à boca. Na maioria dos casos, o comportamento tende a diminuir naturalmente conforme o cão amadurece, principalmente quando o tutor investe em treinamento e manejo ambiental.

Causas comportamentais x causas médicas (tabela comparativa)

Embora a coprofagia costume ter origem comportamental, ignorar completamente a hipótese médica pode ser um erro. Antes de qualquer intervenção de treino, o ideal é descartar causas de saúde com um exame veterinário. A tabela abaixo resume os principais fatores associados ao comportamento:

Causas Comportamentais Causas Médicas
Comportamento materno residual (cadelas que lambiam os filhotes) Insuficiência pancreática exócrina (má digestão de nutrientes)
Tédio e falta de estímulo mental ou físico Parasitas intestinais (vermes)
Ansiedade, estresse ou punição excessiva na hora de eliminar Doenças que causam má absorção intestinal
Chamar atenção do tutor (mesmo que seja bronca) Diabetes mellitus não controlada
Imitação de outros cães do domicílio Doença de Cushing (hiperadrenocorticismo)
Exploração natural em filhotes (fase oral) Dietas de baixa digestibilidade ou desbalanceadas
Fome real por restrição alimentar excessiva Uso de determinados medicamentos (corticoides, por exemplo)

"O primeiro passo diante de um cão coprófago sempre deve ser uma consulta veterinária completa, com exame de fezes para descartar parasitas e, se necessário, exames de sangue", recomenda o médico-veterinário Thiago Kanashiro Uehara, clínico de pequenos animais e colunista de saúde pet. "Só depois de afastar as causas médicas é que faz sentido investir em estratégias puramente comportamentais. Tratar como 'manha' um problema que na verdade é uma pancreatite ou uma parasitose é um erro que atrasa o diagnóstico correto."

Se você ainda está organizando o orçamento e os cuidados do primeiro ano do seu cão, vale a leitura do nosso guia completo sobre orçamento real do primeiro ano com cachorro ou gato, que também aborda consultas veterinárias de rotina e exames preventivos.

E a grama? Quando é normal e quando é alerta

Comer grama é, estatisticamente, ainda mais comum do que a coprofagia. Uma pesquisa também conduzida pela UC Davis com mais de 1.500 tutores constatou que quase 80% dos cães já comeram plantas ou grama em algum momento da vida, e a grande maioria desses episódios não vem acompanhada de qualquer sinal prévio de mal-estar — ou seja, o cão não come grama porque está passando mal, ele simplesmente gosta ou sente vontade de fazer isso.

Durante décadas, o senso comum disse que cães comeriam grama para "provocar" o próprio vômito e aliviar o estômago. A ciência atual relativiza bastante essa ideia. Segundo o mesmo estudo, apenas uma pequena fração dos cães (cerca de 10%) demonstrava sinais de doença antes de comer grama, e menos de um em cada quatro episódios resultava efetivamente em vômito depois.

Em resumo: na maioria das vezes, comer grama é um comportamento normal, ligado à busca por fibras, à textura, ao paladar ou simplesmente à curiosidade e ao prazer de mastigar algo verde e fresco. Não é, por padrão, sinal de doença.

Cachorro cheirando e mastigando grama verde no parque
Comer pequenas quantidades de grama costuma ser um comportamento inofensivo e até frequente entre cães saudáveis.

Isso não significa, porém, que o hábito deva ser ignorado por completo. Há sinais que pedem atenção redobrada e, possivelmente, uma visita ao veterinário:

  • O cão come grama de forma compulsiva, repetidas vezes ao dia, todos os dias.
  • O comportamento vem acompanhado de vômitos frequentes, diarreia, perda de peso ou apatia.
  • Há preferência clara por gramados tratados com agrotóxicos, adubos químicos ou produtos para jardim — nesse caso o risco é de intoxicação, não da grama em si.
  • O cão passa a comer outros itens não alimentares, como terra, pedras, tecido ou plástico — comportamento conhecido como pica, que pode indicar deficiências nutricionais ou transtornos compulsivos e exige avaliação veterinária.

Antes de deixar o cão ter acesso livre a qualquer área verde, vale a pena redobrar o cuidado, sobretudo no caso de cães resgatados ou recém-adotados que ainda estão se adaptando à rotina da casa. Se esse é o seu caso, o artigo sobre a regra 3-3-3 de adaptação de cães e gatos adotados traz orientações valiosas sobre esse período inicial, em que alterações de comportamento alimentar são comuns.

Como corrigir: manejo, enzimas e treino

A boa notícia é que, na imensa maioria dos casos, a coprofagia responde bem a mudanças de manejo e treinamento consistente. Veterinários comportamentalistas costumam recomendar uma combinação de estratégias, e não uma solução única:

1. Recolha as fezes imediatamente

A medida mais simples e eficaz é reduzir a oportunidade: recolher as fezes do quintal ou durante o passeio assim que o cão evacua, antes que ele tenha a chance de se aproximar novamente. Parece óbvio, mas é a intervenção com melhor custo-benefício documentada por comportamentalistas.

2. Enriquecimento ambiental e exercício

Cães entediados ou com excesso de energia acumulada tendem a desenvolver comportamentos compulsivos com mais facilidade, incluindo a coprofagia. Brinquedos que estimulam o faro (como os brinquedos de busca de comida, os chamados "snuffle mats"), passeios mais longos e sessões de treinamento com reforço positivo ajudam a reduzir o tédio.

3. Ajuste na dieta

Rações de baixa digestibilidade fazem com que restos de nutrientes cheguem quase intactos às fezes, tornando-as mais "atraentes" para o cão. Trocar para uma dieta de melhor qualidade, sob orientação veterinária, costuma reduzir o interesse do animal pelas próprias fezes.

4. Suplementação com enzimas digestivas

Existem suplementos à base de enzimas (como papaína e outras enzimas proteolíticas) e produtos que alteram o sabor das fezes, tornando-as menos palatáveis. Embora a eficácia varie de cão para cão — e as evidências científicas ainda sejam limitadas — muitos tutores relatam melhora ao combinar esses produtos com as outras estratégias de manejo.

5. Treino de comando "deixa" ou "solta"

Ensinar comandos básicos de interrupção, como "deixa" ou "não pega", com reforço positivo consistente, permite redirecionar o cão no exato momento em que ele se aproxima das fezes, seja as próprias, seja de outro animal.

Tutor treinando cachorro com petiscos no quintal de casa
O treinamento com reforço positivo é uma das ferramentas mais eficazes para reduzir comportamentos indesejados sem gerar medo no animal.

Dica prática: se você tem mais de um cão em casa e um deles come as fezes do outro, separar os animais durante e logo após a eliminação — até que ambos aprendam a rotina de recolhimento imediato — costuma resolver boa parte dos casos em poucas semanas.

O que não fazer (broncas que pioram tudo)

Um erro extremamente comum — e compreensível, dado o nojo que a situação provoca — é a bronca forte ou o castigo físico quando o tutor flagra o cão no ato. Segundo a veterinária Fernanda Bicudo Salomão, essa é uma das piores respostas possíveis: "Punir o cão depois que ele já eliminou pode, paradoxalmente, ensiná-lo a comer as próprias fezes mais rápido, como forma de 'esconder a prova' antes que o tutor perceba e brigue com ele. É um efeito colateral clássico do castigo mal aplicado, e vejo isso na clínica com bastante frequência."

Outras práticas que devem ser evitadas:

  • Esfregar o focinho do cão nas fezes: além de não ensinar nada, é uma forma de maus-tratos que compromete a confiança entre tutor e animal.
  • Gritar ou usar violência física: aumenta o estresse e a ansiedade, fatores que frequentemente pioram comportamentos compulsivos em vez de melhorá-los.
  • Ignorar o problema por vergonha: muitos tutores deixam de comentar o hábito até com o próprio veterinário por constrangimento, o que atrasa diagnósticos importantes.
  • Restringir comida como "castigo": reduzir a quantidade de ração na tentativa de "resolver" o problema pode, na verdade, aumentar a fome e piorar a coprofagia.

O caminho mais eficaz é sempre a combinação de paciência, consistência e reforço positivo — os mesmos princípios recomendados para qualquer processo de adaptação comportamental, inclusive os descritos no nosso conteúdo sobre perguntas essenciais antes de adotar um pet, que também trata de expectativas realistas sobre comportamento animal.

Quando procurar veterinário

Embora a coprofagia e o consumo de grama sejam, na maior parte dos casos, comportamentos benignos, alguns sinais de alerta indicam que é hora de agendar uma consulta sem demora:

  • Mudança repentina e intensa no apetite (para mais ou para menos).
  • Perda de peso não intencional.
  • Fezes com aspecto anormal (muito volumosas, gordurosas, com muco ou sangue).
  • Vômitos recorrentes, associados ou não à ingestão de grama.
  • Sinais de dor abdominal, letargia ou apatia.
  • Início súbito da coprofagia em um cão adulto que nunca teve esse comportamento antes.

"Todo comportamento alimentar atípico que surge de forma repentina em um cão adulto merece investigação", reforça o médico-veterinário Thiago Kanashiro Uehara. "Isso vale tanto para a coprofagia quanto para o consumo de grama: mudança brusca de padrão é sempre mais preocupante do que um hábito que já existe desde filhote."

Se você ainda não tem um cão em casa e está pensando em adotar, vale conhecer as opções disponíveis em instituições e ONGs parceiras do Adotar, que contam com equipes preparadas para orientar tutores de primeira viagem sobre esses e outros comportamentos comuns da rotina canina.

No fim das contas, tanto a coprofagia quanto o hábito de comer grama fazem parte do repertório natural — ainda que nem sempre agradável aos nossos olhos — da espécie canina. Entender a origem evolutiva e comportamental desses hábitos ajuda a lidar com eles sem culpa, sem punições desnecessárias e, principalmente, com mais tranquilidade no dia a dia com o seu melhor amigo.